1.0 INTRODUÇÃO
O termo mentor remete à Grécia
Antiga e ao seu legado histórico-cultural. O propósito da
tradição grega, da vida orientada por um mentor era o de moldar socialmente
todo o caráter de apenas uns poucos privilegiados – moral, intelectual e socialmente,
e seu objetivo o de refletir o divino, num egocentrismo enaltecido, para
lembrar aos meros mortais de sua origem divina.[1]
Pensaremos no mentor como aquele que
acompanha ou guia na orientação. “A experiência original da orientação é o
Oriente: o sol nascente, pelo qual quem procura situar-se, encontrar sentido,
pode localizar-se em relação a um horizonte espacial e temporal”[2]. Observa-se que “etimologicamente, encontrar o
sentido é encontrar o caminho, a direção, os pontos de referência que permitem
que a gente se oriente. Quando se fala de 'orientação espiritual', é isso que
está por trás”.[3]
Nota-se que a pessoa que procura
“situar-se” não é passiva, mas atuante, trata-se de alguém que quer envolver-se
na relação de mentoria, que é justamente o “processo de 'outrar', isto é,
aprender a valorizar a riqueza educacional que os outros nos trazem e também as
habilidades sociais que eles nos ajudam a desenvolver”[4].
Observamos que quando alguém se
torna cristão, estabelece-se aí o tempo/espaço oportunos para a orientação ou
reorientação, uma vez que se propõe um novo caminho. Porém muitas pessoas ao se
tornarem cristãs, e mais especificamente membros das igrejas evangélicas
brasileiras são recepcionadas e encontram diante de si muitas atividades, muitos
programas, envolvendo-se de tal maneira nessa estrutura que podem passar a
desenvolver uma religião irrefletida, superficial.
Observamos também que essa recepção
e acompanhamento às vezes ocorre por um curto período de tempo, e sem o devido
aprofundamento, algo distante e frio, mesmo por parte de um discipulador mais
próximo, quando esse existe.
Refletir a respeito da falta dessas
relações mais profundas, e por consequência sobre a falta de acompanhamento
adequado no seio da igreja evangélica brasileira, nos leva a pensar sobre a
mentoria e orientação, e em como essas ações poderiam contribuir para formar a
espiritualidade dos cristãos evangélicos brasileiros.
Dessa maneira, é possível que a
mentoria dê auxílio ao indíviduo no percurso da orientação, ajudando-o a ser
uma “pessoa espiritual, que precisamente por ter-se encontrado com o Deus-Amor,
é a menos alienada, mais comprometida com os homens e com os valores do Reino”[5].
Esta pessoa carrega em si “vitalidade como o amor à vida”,[6] capacidade para sair para a missão, de
desprender-se de si e doar-se, e a certeza de que isso é possível a pessoas
comuns.
Em encontros de Jovens Com Uma
Missão[7]
Brasil é comum se ouvir falar em “orfandade espiritual”. Isto se dá pela
carência de referenciais, talvez principalmente para a nossa geração. Parece
não haver em quem confiar, parece não haver quem possa oferecer orientação,
apoio. Observamos que é assim que muitos de nós se sente nas igrejas.
Nesse sentido, observamos que não
existe muitos mentores em nosso meio e mesmo quando existe, parece que eles
carecem de correção com relação a que se orientam e a que guiará aquelas
pessoas a quem acompanham. Percebe-se que “alguns mentores (...) no contexto da
fé cristã podem, ainda assim, ser intensamente individualistas porque ainda não
discerniram a influência cultural falsa que herdaram”[8].
Aquele que acompanha na relação de
mentoreamento traz em si o legado de sua cultura, passando muitas vezes
desapercebido com relação a alguns valores que está transmitindo. Esquece-se
que trabalha com um referencial supra cultural, que deve guiar ao ponto de
orientação que é Jesus Cristo.
Soma-se a isso o fato de que somente
dar informações não forma o indivíduo, ao que nos deparamos com uma
espiritualidade superficial, crescente individualismo, alienação, dentre
outros. Nota-se que temos falhado numa “expectativa ingênua de que a maioria
das pessoas seria moralmente transformada como consequência da iluminação
doutrinária”[9].
Tal
expectativa está presente em nossa expressão religiosa devido àquilo que se
ensina, ou seja, a Palavra de Deus. Porém, em muito esse ensino vem separado do
desafio do exemplo, da encarnação da verdade, dos princípios expostos por Jesus
Cristo nas Escrituras.
Muito da expressão religiosa não
será dinâmica e vital e muito provavelmente não levará o indivíduo a
desenvolver sua espiritualidade, pois este não encontra relações interpessoais
que o levem a isso, que o desafiem, no seio da igreja.
Ao se pensar em espiritualidade nos
deparamos com um tema que será inevitável assunto no acompanhamento, uma vez
que este é essencialmente espiritual. Jürgen Moltmann fala a respeito desse
assunto a partir de seu significado literal, ou seja, desenvolver-se
espiritualmente é desenvolver-se com Deus diariamente.
Essa compreensão que espiritualidade
dá-se em vivência diária, num espaço para uma vida criativa na qual sejamos
atuantes, relaciona-se estreitamente ao senso de missão, por causa do ponto
para o qual somos orientados como cristãos.
Diante do que fora exposto,
questiona-se: o estabelecimento de uma relação de mentoreamento e orientação
espiritual contribui para a formação de discípulos com maior nível de
espiritualidade e convicção de missão?
Portanto, o estudo a respeito da
mentoria e orientação espiritual justificam-se pelas seguintes razões:
Primeiro, pelo fato de muitas pessoas sentirem-se “desnorteadas”, “sem
sentido”, carentes de orientação, de uma atenção personalizada no discipulado
ou no mentoreamento. Não temos observado uma preocupação com uma orientação
espiritual mais efetiva em nossas igrejas.
Uma segunda razão encontra-se em
nossa jornada pessoal, pois trata-se de uma carência percebida em nossa
experiência de aproximadamente oito anos de fé cristã evangélica.
Nesse período quatro pastores passaram
pela igreja à qual somos filiados, e somente um deles deu um pouco mais de
atenção a acompanhar-nos, ao indicar um seminário para estudarmos e ter algumas
poucas conversas conosco.
Não se estabeleceu diretoria alguma
na igreja durante esses anos que se ocupasse com a tarefa do acompanhamento de
alguma forma. Observamos que não existe a visão de desenvolvimento integral de
um futuro ministro e diga-se, mesmo se este já estiver devidamente engajado no
serviço.
Trata-se de um assunto delicado,
pois o missionário embora desenvolva suas atividades em prol do reino de Deus,
está vinculado a uma igreja local. Se esta pessoa que é preciosa segundo o
ensinamento bíblico não recebe a devida orientação em sua jornada, dificilmente
haverá um relacionamento de qualidade, de orientação com um membro comum da
igreja, ou seja, alguém que não esteja aparecendo, atuando efetivamente junto à
igreja.
A terceira razão está relacionada à
escassez de material em língua portuguesa a respeito especificamente de
mentoria e orientação no meio cristão. Encontramos alguma bibliografia no site
do Ministério de apoio a pastores e igrejas (MAPI) que pesquisa o tema e
procura desenvolver esse trabalho de cuidado com os líderes evangélicos e com
suas famílias já há algum tempo, mas utilizamos essencialmente como referencial
teórico o livro do Dr. James M. Houston. Mentoria espiritual: o desafio de
transformar indíviduos em pessoas, Sepal, 2003; e também a obra escrita
pelo jesuíta Dr. Ulpiano Vázquez Moro. A orientação espiritual: mistagogia e
teografia. Edições Loyola, 2001.
Estabelece-se como hipótese que
havendo o estabelecimento da mentoria e orientação como ferramentas para o
cumprimento da missão da igreja, no sentido em que amamos e nos relacionamos
com o outro, sendo efetivamente parte de um corpo, de um organismo vivo e
dinâmico, serão formados discípulos mais experimentados e com um maior nível de
espiritualidade e conseqüentemente convicção e prática de missão.
Diante disso, propomos como objetivo
geral demonstrar a necessidade do estabelecimento de relações de mentoria e
orientação nas igrejas evangélicas brasileiras. Para que se possa alcançar o
objetivo geral, deverão ser atingidos determinados objetivos específicos, quais
sejam:
·
Relacionar o legado histórico cultural da mentoria ao
modelo de ensino exemplificado por Jesus Cristo nas Escrituras;
·
Descrever algumas características necessárias para
oferecer e receber mentoria e orientação;
·
Escrever a respeito da mentoria e orientação
espiritual, relacionando-a à eclesiologia e ao treinamento e acompanhamento
missionário.
Utilizou-se como metodologia a
pesquisa bibliográfica, onde foram consultados livros e periódicos com artigos
sobre o tema proposto e, após seleção do material que serviu de suporte para a
comprovação da hipótese apresentada, tais informações foram sistematizadas em
um referêncial teórico e alicerçado neste último, será apresentada uma
conclusão final obtida como fruto da leitura analítica do material
bibliográfico.
No primeiro capítulo indicamos
algumas obras que dão uma boa contribuição a respeito da abordagem histórica da
mentoria, bem como expomos algumas algumas de nossas características como
sociedade atual. Com essa trajetória pretendemos demonstrar a importância do
resgate da mentoria, a qual podemos observar no passado, para tratar do
desenvolvimento integral da pessoa hoje.
No segundo capítulo a ênfase recai
sobre a necessidade de se construir uma conceituação teórico-teológica a
respeito da mentoria e orientação espiritual. Com esse alicerce estabelecido
pensaremos também nesse capítulo a respeito de algumas características
essenciais tanto para o orientador quanto para o orientando.
No terceiro capítulo
escrevemos a respeito da utilização da ferramenta de mentoria a partir duma
perspectiva eclesiologica e missiologica, de maneira que através desse recurso
seja possível investir tanto na formação adequada, como no acompanhamento
durante a carreira do discípulo de Jesus Cristo.
[1] Cf. HOUSTON, James. E. Mentoria espiritual:
o desafio de transformar indivíduos em pessoas. São Paulo :
Sepal, 2003, p. 31.
[2] Cf. MORO, Ulpiano V. A orientação
espiritual: mistagogia e teografia. São Paulo: Edições Loyola, 2001, p. 8.
[3] Cf. Ibid, p. 9, 2001.
[4] Cf. HOUSTON, p. 10, 2003.
[5] Cf. Moro, p. 84, 2001.
[6] Cf. Ibid, p. 89.
[7] Jovens Com Uma Missão. Agência missionária
internacional e interdenominacional fundada na década de 60 nos EUA.
[8] Cf. HOUSTON , p. 13, 2003.
[9] Apud
Houston, p. 62, 2003, citando Steven Ozment, The Age of Reform 1250-1550 (A Era
da Reforma 1250-1550); New Haven and London, Yale University Press, 1980, p.
137.



